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Até Quando Vamos Chorar as Mesmas Enchentes?


As imagens de ruas alagadas, famílias desabrigadas e cidades inteiras em estado de emergência não são fatos isolados.


Tragédias recentes, como a enchente no Rio Grande do Sul, que deixou milhares de desabrigados, crianças órfãs e comunidades inteiras sem qualquer estrutura de apoio, expõem uma realidade que se repete no Brasil ano após ano.

Não se trata de acaso. Não se trata apenas de natureza.

À primeira vista, pode parecer que as enchentes são apenas “desastres naturais inevitáveis”. No entanto, ao olhar com mais atenção, percebemos que essa realidade é fruto de uma combinação de fatores climáticos, urbanização desordenada, infraestrutura insuficiente, desigualdade social e mudanças ambientais globais que tornam tudo ainda mais crítico e desafiador.


O Brasil e o clima

O Brasil está localizado na zona intertropical do planeta, aquela "faixa do meio" do globo, que abrange boa parte da África, Indonésia e, majoritariamente, nosso território. Isso significa um clima marcado por temperaturas elevadas e duas estações bem definidas: uma seca e outra chuvosa.


Quando chega a época das chuvas, especialmente no verão, em regiões como o Sudeste, a intensidade e a concentração dos temporais colocam à prova cidades que já nasceram vulneráveis. Encostas íngremes, várzeas e vales urbanos, como em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, são cenários em que a força das águas se encontra com estruturas frágeis.


Fenômenos globais, como El Niño, La Niña e o aquecimento do planeta, ainda intensificam esse quadro, tornando as chuvas mais irregulares, prolongadas e destrutivas.


O preço do crescimento urbano desordenado

O Brasil urbanizou depressa; mais depressa do que suas cidades foram capazes de aprender a conviver com a água - sem planejamento que respeitasse rios, nascentes e áreas naturalmente alagadiças.


Em poucas décadas, o avanço dos loteamentos e o adensamento em áreas periféricas transformaram paisagens naturais em tapetes contínuos de concreto. Nesse movimento, perdemos a noção de que a cidade também é bacia hidrográfica: todo telhado, rua e praça está inserido em um sistema que capta, conduz e dissipa a chuva.


  • Margens de rios, encostas e manguezais foram ocupados por falta de alternativas habitacionais.

  • Um boom populacional nas décadas de 1960 a 1980 incentivou a expansão das cidades sem reservar áreas verdes suficientes, que funcionariam como “esponjas naturais”.


O planejamento muitas vezes chegou depois da ocupação; o zoneamento cedeu a exceções do dia a dia; a fiscalização não alcançou a velocidade do mercado imobiliário; a habitação de interesse social não ofereceu alternativas seguras em quantidade suficiente. O resultado? A obra corre atrás da cidade, e a emergência corre atrás da obra.


Hoje, revemos esse processo com olhos mais críticos, diante de uma crescente consciência ambiental e urbana, mas os reflexos ainda pesam em cada temporada de chuvas.


Infraestrutura que não acompanhou a população

Enquanto outros países passavam por revoluções tecnológicas e industriais mais cedo, o Brasil avançava de forma desigual. A expansão urbana correu na frente, enquanto os sistemas de drenagem, saneamento e abastecimento de água ficavam em segundo plano.


Faltava recurso? Faltava viabilidade técnica? Faltava prioridade política? Talvez um pouco de tudo... O certo é que, diante do crescimento acelerado das cidades, o planejamento e os investimentos estruturais não acompanharam o mesmo ritmo.


  • Bueiros e galerias pluviais frequentemente estão entupidos por lixo.

  • Faltam reservatórios de contenção (“piscinões”) e canais adequados para escoar ou tratar a água.

  • O planejamento urbano ficou para trás diante da velocidade da ocupação.


O que vemos hoje é o retrato de uma infraestrutura reativa: em vez de prevenir, ela apenas tenta remediar, sempre atrasada em relação à demanda da população. É como se a cidade fosse construída sobre uma dívida permanente com seu próprio território.


E o preço é pago a cada estação chuvosa: ruas paralisadas, bairros inteiros alagados, famílias desabrigadas. A água, que é recurso, vira ameaça. E a falta de estrutura continua a transformar fenômenos naturais em tragédias urbanas.


Questões sociais e políticas: a face mais dura do problema

O "drama" das enchentes é também o "drama" da desigualdade. A população de menor renda é a mais exposta, vivendo em áreas de risco porque são os únicos espaços acessíveis.


As respostas do poder público, por sua vez, costumam ser reativas: resgate às pressas, abrigos improvisados, distribuição emergencial de mantimentos e, em seguida, a promessa de reconstrução. Um ciclo constante, que se repete à décadas, com diferentes governos, em diferentes cidades.


Pouco se investe em soluções preventivas, como educação ambiental, políticas habitacionais, zoneamento responsável e obras estruturais de longo prazo. É um desafio? Sem dúvida. Envolve custos altos, direcionamento de objetivos comuns,

conflitos políticos, mudança cultural e vontade de romper privilégios. Mas como está, não pode permanecer.


Esse ciclo cria um efeito em cadeia aonde famílias vulneráveis permanecem em áreas inseguras, o poder público gasta mais em emergências do que em prevenção, e a sociedade como um todo arca com riscos e prejuízos.


As mudanças climáticas

Se já não bastasse a herança urbana, vivemos hoje sob o impacto e atenção crescente das mudanças climáticas globais. Chuvas mais intensas e frequentes, ondas de calor extremo, aumento do nível do mar e eventos antes considerados “excepcionais” tornaram-se rotina.


A cada ano, recordes são quebrados, mostrando que o desafio não é apenas local, mas global.


Entre rios, entre escolhas

As enchentes no Brasil não são apenas fenômenos naturais. São o resultado direto da interação entre clima, escolhas urbanas, desigualdades sociais e falhas na gestão pública.


Enquanto seguimos investindo pouco em planejamento preventivo e muito em remediação emergencial, continuaremos repetindo essa história.


Para quem deseja se aprofundar no tema, o documentário Entre Rios (2009) é uma obra cultural e necessária. Produzido como trabalho de conclusão de curso, retrata com clareza a relação entre urbanização e enchentes na cidade de São Paulo. Um retrato que poderia ser estendido a tantas outras cidades brasileiras.


O futuro exige mais do que promessas. Exige consciência coletiva (isto é, pensar além das próprias necessidades), políticas públicas profundas e engajamento social real, capaz de atravessar governos, superar conflitos ideológicos e partidos, e interesses passageiros. Porque, no fim das contas, o que está em jogo não é apenas a preservação de cidades ou a redução de prejuízos materiais. O que está em jogo é a própria essência do direito, aquele que fundamenta todos os outros: o direito à vida.

 
 
 

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